Input do Associado
Com os testemunhos dos associados e proprietários das empresas: DumaTêxtil, Loja Record, Flor do Douro, Sousa & Merêncio e Restaurante Solar do Souto
Vozes dos empresários de Penafiel: Expectativas e ambições para o ano de 2026
O ano de 2026 promete ser particularmente desafiante para os empresários portugueses. A instabilidade provocada pela guerra, a crescente competição global, a volatilidade geopolítica e a aceleração tecnológica obrigam as empresas a adaptarem-se a um ritmo cada vez mais exigente.
A estes fatores somam-se problemas internos bem conhecidos: a escassez de mão de obra, o aumento dos custos operacionais e a pressão sobre as margens de lucro.
Ainda assim, as previsões apontam para que Portugal continue a crescer acima da média europeia, um sinal claro da resiliência e da capacidade de reinvenção do tecido empresarial.
É precisamente essa força que destacamos nesta edição da #Input. Damos voz aos nossos associados, empresários de Penafiel, aos seus desafios e às suas expectativas para o ano de 2026. Mostramos o que pedem a quem decide e como transformam incertezas em oportunidades, contribuindo para o desenvolvimento económico da região.
Sousa & Merêncio: O rosto da confiança na saúde
Com um quarto de século de história em Penafiel, a Sousa & Merêncio – Produtos Hospitalares afirma-se como um pilar de solidez e crescimento sustentado. O sucesso da empresa assenta numa premissa clara: o equilíbrio entre o atendimento personalizado e a formação contínua.
Para a proprietária, Luísa Sousa e Silva, o fator humano é o diferencial competitivo. “Embora muitos destes produtos existam online, o nosso trabalho exige presença física. O cliente precisa de ver, experimentar e compreender o funcionamento de cada equipamento”, sublinha, certa de que é o “servir bem o cliente” que faz a diferença na sua loja.
A loja vende todo o tipo de produtos ortopédicos e médicos e não é alheia aos constrangimentos que se vivem atualmente na Saúde, que causam também transtornos na sua atividade empresarial. A isto, junta-se o aumento dos preços dos produtos – este ano acima das duas casas decimais – o que obriga também ao aumento do preço de venda, numa área geográfica onde existem pessoas com baixos rendimentos. “Temos que ter capacidade de resposta para todos os clientes, produtos mais caros e mais baratos. Mas também temos que garantir a sustentabilidade da empresa e manter a nossa margem de lucro para podermos fazer face às nossas despesas”, refere Luísa Sousa e Silva.
Presença assídua na Feira da Saúde, evento organizado pela Associação Empresarial de Penafiel, Sousa & Merêncio – Produtos Hospitalares destaca a importância da atenção que as entidades públicas dão aos negócios locais.
Mas vai além e defende um olhar mais atento do Governo ao setor, quer na perspetiva empresarial, quer na perspetiva do cliente. “No nosso negócio, era importante que o Governo olhasse para a questão do IVA nestes artigos, colocando-o na taxa mínima de 6%. Era importante para nós, mas também para os utentes, já que tornaria os produtos mais baratos”, defende.
Com um leque de clientes de todo o Tâmega e Sousa, para o novo ano, o foco mantém-se na modernização e na qualidade do serviço, garantindo que a Sousa & Merêncio continua a ser a resposta de confiança para as necessidades da região. “Mas passam também por poder continuar a assegurar o cumprimento dos objetivos definidos, que permitam o crescimento sustentado da empresa”, concluiu Luísa Sousa e Silva.
DumaTêxtil: Resistir num setor em transformação
Também o nosso associado DumaTêxtil, sediado na freguesia de Castelões, enfrenta atualmente o aumento generalizado dos custos, num setor fortemente pressionado pela concorrência do Médio Oriente, onde os preços da mão de obra atingem valores que o empresário Pedro Teixeira considera difíceis de justificar.
Com 35 anos de atividade e quase totalmente orientada para o mercado externo – sobretudo Inglaterra, Espanha, Itália e França – a empresa, que se dedica à confeção de artigos de bebé e criança, tem atravessado um período desafiante, marcado por dificuldades que se têm intensificado com a crescente influência dos mercados orientais. “Nunca apanhei o setor verdadeiramente pujante, mas neste momento está mais difícil, porque fazemos essencialmente aquilo que o Oriente não quer fazer”, explica Pedro Teixeira, sublinhando que os preços e custos de mão de obra praticados nestes mercados são “impraticáveis” para a realidade da indústria têxtil nacional, que atualmente se vê ainda confrontada com a redução do número de peças por encomenda.
Com 22 colaboradores, os salários e o aumento das matérias-primas são a maior fatia dos encargos. “O aumento dos salários é muito importante, mas, com o acréscimo das matérias-primas, torna-se muito difícil para nós, porque as margens de lucro são cada vez mais pequenas”, lamenta o empresário.
Num setor “extremamente competitivo”, onde a falta de mão de obra especializada é já uma preocupação, Pedro Teixeira defende a necessidade de uma aposta séria na profissionalização e formação, logo a partir das escolas. “Esta é uma área em que a mão de obra vai ter cada vez mais valor, porque as novas gerações não querem vir para a confeção e o setor tende a reduzir. Era importante que os nossos governantes olhassem para este problema e tomassem medidas. Temos de preservar a imagem de têxtil de qualidade que Portugal conquistou”, reforça.
Para apoiar a modernização do setor, Pedro Teixeira defende ainda que o Governo devia olhar para as empresas de menor dimensão como a sua, que tem muita dificuldade no acesso aos projetos lançados pelo Governo. “Nunca pude concorrer a um projeto, estão pensados para as grandes empresas e era importante que o Governo olhasse para isso com outros olhos, que controlasse, mas que apoiasse as empresas na sua modernização”, conclui.
Loja Record: O digital como caminho de futuro
A Loja Record é um exemplo claro de adaptação aos novos tempos, apostando fortemente nos canais digitais, uma estratégia que André Magalhães pretende manter e reforçar em 2026. “O digital é o nosso caminho”, afirma o responsável da nossa associada, vencedora da edição de 2025 do concurso de Montras de Natal.
Instalada no centro da cidade de Penafiel há nove anos, a loja comercializa todo o tipo de artigos de desporto e tem investido de forma consistente em marketing, redes sociais e vendas online.
“É uma forma de sermos mais vistos. Na minha opinião, o comércio local vive muito da montra digital e, no nosso caso, isso tem dado frutos, porque temos clientes de vários pontos do país”, explica. “Cada vez mais o nosso cliente vem à loja para nos conhecer; depois, como já nos conhece, ganha confiança e começa a comprar no nosso site. Cada vez mais o nosso cliente sabe que na Record vai encontrar aquilo que procura”, acrescenta.
Embora reconheça que as grandes superfícies criam desafios adicionais ao comércio de rua, André Magalhães acredita que a Record faz a diferença através do atendimento personalizado, que considera essencial para a satisfação do cliente. “Nós não vendemos sapatilhas, vendemos experiências. Procuramos conhecer o cliente, qual é o seu estilo, que tamanho calça”, afirma.
A trabalhar com marcas de referência no setor desportivo, o empresário assegura que os consumidores estão cada vez mais atentos à qualidade, sobretudo num contexto de aumento generalizado dos preços. “As pessoas estão convencidas de que os preços vão continuar a subir e, por isso, procuram cada vez mais qualidade”, sublinha.
Considerando Penafiel “um mercado interessante, com boa comunicação e entidades dinâmicas — como a AEP e a Câmara Municipal — empenhadas na promoção do comércio local”, André Magalhães defende, ainda assim, que é necessário ir além e reorganizar o tecido comercial da cidade. “Era importante regular a disposição das lojas na cidade e criar uma estrutura mais equilibrada do comércio local para não sobrepor negócios na mesma rua”.
A nível nacional, considera urgente uma regulamentação mais rigorosa das vendas online. “Estamos a ver pessoas a comprar artigos em alguns sites e depois a vendê-los nas suas próprias lojas. E isso é impensável”, remata.
Flor do Douro: uma raiz firme em Eja
As dificuldades que afetam o tecido empresarial não passam ao lado do setor primário. O testemunho da Flor do Douro, empresa associada da AEP e dedicada à comercialização de plantas há três décadas em Eja, confirma-o. Presença habitual na feira “Flores e Sabores”, a empresa “familiar”, tem atravessado “altos e baixos”, como refere a proprietária, Carla Martins.
Segundo a empresária, os últimos anos trouxeram desafios acrescidos, muito influenciados pelo contexto económico europeu. “Com o poder de compra a descer, o primeiro artigo a sofrer é o bem não essencial. E a planta é vista como um artigo de luxo”, explica.
A pandemia, curiosamente, foi um período de crescimento. “As pessoas passaram mais tempo em casa, valorizaram outras coisas e dedicaram-se a atividades que antes não tinham tempo para explorar”, recorda.
No entanto, com o regresso à normalidade económica, o setor voltou a sentir o impacto da sua natureza não prioritária. “O cliente de artigos de luxo manteve o consumo, mas notamos uma quebra significativa no cliente que compra a planta mais pequena”, acrescenta.
A conjuntura económica não é o único obstáculo: as condições climáticas deste ano têm afetado o setor. E, no caso da Flor do Douro, soma-se ainda a localização, na zona sul do concelho, com fracas acessibilidades. “Era preciso melhorar os acessos e o IC35 ia ser maravilhoso”, sublinha.
A falta de apoio ao investimento é outra preocupação e limita a capacidade de crescimento. “Nunca conseguimos um apoio. Ou não existem, ou não estamos enquadrados. Não temos peso económico. Mas seria fundamental para evoluirmos em instalações, aquisição de plantas e até na importação, que continua a ser muito difícil”, refere.
Apesar dos desafios, a evolução tem acontecido graças ao empenho de toda a família envolvida no negócio, que procura promover a empresa em todos os meios possíveis. “As pessoas não vêm cá só por vir, temos de levar o nosso negócio até elas e trazê-las até nós”, afirma a empresária, que acredita que a visibilidade poderia ser maior, se as acessibilidades também o fossem.
Para 2026, o objetivo é claro: manter a atividade da empresa, atingir, no mínimo, os objetivos do ano passado e garantir a sustentabilidade da empresa, uma meta que, para Carla Martins, “é tão desafiante quanto essencial”.
Solar do Souto: 29 anos de tradição à mesa
O Solar do Souto, em Abragão, abriu portas há 29 anos e é uma referência no roteiro gastronómico local e presença regular nos eventos gastronómicos do concelho e da região, como o Petiscando, da AEP, o São Martinho ou a Rota da Lampreia, promovidos pela Câmara Municipal de Penafiel.
O negócio é de família, mas a cozinha e o fogão estão nas mãos da proprietária Arminda Silvares, que desde muito nova tem jeito para a arte e prima pela qualidade dos produtos que usa na confeção das suas especialidades, entre as quais se destaca o Cozido à Portuguesa, o Anho Assado no Forno, o Arroz de Lampreia, ou o bacalhau, cozinhado de diversas formas. “Tenho clientes fiéis desde o primeiro dia e isso é reflexo do serviço de qualidade e da tradição dos pratos que temos”, referiu a empresária, que considera os clientes “como família”.
Tal como em muitos setores, o aumento dos preços tem afetado o Solar do Souto, que privilegia produtos de qualidade, o que se reflete nos preços dos mesmos. Mas Arminda Silvares, que já atravessou outras crises no setor, mantém-se confiante. “Espero que se não melhorar, pelo menos que não piore”, refere, explicando que este aumento dos preços dos produtos, obriga também ao aumento dos preços no menu do seu restaurante.
“Vamos ter que aumentar um bocadinho, vai ser o mínimo para os clientes não deixarem de vir. Mas os meus clientes também sabem que só uso produtos de primeira”, assegura.
Para Arminda Silvares, era importante que o Governo baixasse a taxa do IVA para a restauração. “Estamos à espera que isso aconteça, era uma boa ajuda para todos”, afirma.
A fama do Solar do Souto já extravasa dos limites do concelho e vem muita gente de fora. “Algumas eu nem conheço”, refere, certa de que esta afluência do seu restaurante deriva do trabalho que fazem na promoção do mesmo.
Com uma equipa fiel desde o primeiro dia, Arminda Silvares admite que, apesar disso, é cada vez mais difícil encontrar novos colaboradores. “Sempre gostei de recompensar os meus funcionários e, se eu ganho, eles também ganham. Mas quando precisamos de mais alguém, pedem salários que nós não conseguimos acompanhar”.
Para o novo ano, a esperança é que “as coisas, se não puderem melhorar, que não piorem”. “Nunca tive receio de inovar. De nada fiz alguma coisa e, de pouca coisa, fiz tudo o que tenho”, conclui.
























