Input Económico
Empresas e Projetos AEP
Crescer: Devagar e sem cair …
É prática comum no início de cada ciclo, seja mandato governamental, quadro comunitário de apoio, ou mesmo ano civil, os economistas traçarem um cenário macro económico para os tempos futuros, geralmente num horizonte de curto prazo.
Tendo como foco o ano de 2026, quais são as perspetivas económicas para Portugal, as principais oportunidades e os maiores desafios para os Empresários?
Em 2026, a economia portuguesa enfrenta um cenário marcado por sinais de estabilidade, mas também por diversos desafios estruturais e conjunturais que moldam o desempenho das empresas e influenciam os resultados dos principais indicadores macro económicos. Após anos de crescimento moderado, Portugal deverá continuar a crescer ligeiramente acima da média da zona euro, apoiado por consumo interno estável, uma boa execução de fundos europeus e um mercado de trabalho fortalecido, com baixas taxas de desemprego.
Por outro lado, os riscos externos que emanam da volatilidade e impressibilidade da política aduaneira norte americana exigem uma adaptação estratégica por parte dos governos europeus e dos empresários.
As projeções macroeconómicas apontam para um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de 2,1% a 2,3% em 2026, superior à média da zona Euro, onde se espera um crescimento mais lento neste ano.
Este desempenho é sustentado por vários fatores:
- o consumo privado tem mostrado estabilidade, refletindo não apenas confiança das famílias mas também aumentos salariais regulares e desemprego relativamente baixo;
- a utilização acelerada dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) está a impulsionar o investimento público e privado, com impacto positivo em setores como infraestruturas, digitalização e sustentabilidade, com efeitos de disseminação de resultados em vários setores.
Apesar da previsão de crescimento, o equilíbrio orçamental continua sem grande folga. A Comissão Europeia e outras instituições projetam para Portugal um défice orçamental moderado em 2026, refletindo medidas fiscais tenuemente impactantes adotadas em resposta a desafios sociais e económicos, ao mesmo tempo que o rácio da dívida pública continua a cair, aproximando-se dos 88–89% do PIB que, embora elevado, tem vindo a apresentar uma trajetória regular descendente.
Este enquadramento, nada disruptivo em termos de valores, inviabiliza quaisquer medidas potenciadoras de um choque fiscal junto das empresas que permita aumentar a competitividade da economia nacional além fronteiras, pelo que, como quase sempre, terão de ser as empresa privadas o motor de desenvolvimento do país, com o desafio maior de terem de atuar em cima de um cenário de tensões comerciais entre grandes blocos económicos, a escassez de competências especializadas em setores tecnológicos e industriais avançados em que a falta de talento qualificado pode limitar o crescimento e a competitividade e a necessidade de investimento em sustentabilidade, inovação tecnológica, digitalização, reforço de competências digitais e a adoção de novas tecnologias como a inteligência artificial.
Assim, para os empresários portugueses, 2026 será um ano de equilíbrio entre oportunidades e desafios:
- Oportunidades: crescimento económico acima da média europeia, mercado de trabalho resiliente, acesso a fundos comunitários e incentivos à inovação.
- Desafios: controlo de custos, adaptação às mudanças climáticas e ao quadro regulamentar, restrições fiscais e exposição a riscos externos.
A adaptabilidade, o foco na produtividade e o investimento em capital humano e tecnológico serão determinantes para transformar as expetativas em resultados concretos, pelo que as empresas que consigam equilibrar a visão estratégica e a execução operacional estarão em melhor posição para prosperar num ambiente económico em transformação.
Então o que devem fazer as empresas portuguesas perante este cenário?
- Reforçar margens através da produtividade e não apenas via preço, investindo por exemplo na automatização e digitalização de processos;
- Aproveitar fundos europeus e incentivos públicos, nomeadamente nos domínios da transição digital, eficiência energética e internacionalização;
- Adotar uma estratégia comercial mais diversificada, assente numa política de investimento em canais digitais (e-commerce B2B / B2C);
- Reconhecer o capital humano como fator crítico, investindo em formação tecnológica e digital, criar planos de retenção e progressão e reforçar a cultura organizacional;
- Apostar na sustentabilidade e ESG como elementos diferenciadores, através da redução de pegada carbónica e da obtenção de certificações ambientais setoriais.
Em conclusão, para as empresas portuguesas, 2026 não será um ano de crise, mas também não será um ano de crescimento entusiasmante, e as que terão melhor desempenho serão aquelas que conseguirem controlar custos com disciplina, investir em tecnologia e qualificação, diversificar mercados, reforçar a sua estrutura financeira e usar de forma inteligente os fundos comunitários e nacionais disponíveis.
Mas como qualquer cenário hipotético e qualquer previsão dependem de um conjunto alargado de variáveis e da sua evolução, basta por vezes uma alteração não esperada para que tudo possa mudar. Em 2026, os custos associados à reconstrução dos estragos provocados por tempestades severas — nomeadamente a Kristin – poderão ter efeitos diretos e indiretos relevantes no tecido empresarial português.
Em primeiro lugar, o aumento da despesa pública com infraestruturas, habitação e equipamentos poderá reduzir a margem orçamental do Estado para apoios diretos às empresas ou para descidas fiscais no curto prazo. Isso significa que muitas empresas poderão enfrentar um contexto ainda de menor estímulo público, apesar do crescimento económico moderado.
Em segundo lugar, a pressão sobre materiais de construção, transportes e seguros poderá gerar aumentos temporários de custos, sobretudo nos setores da construção, indústria transformadora e logística, pelo que empresas com contratos de preço fixo ou margens reduzidas poderão sentir maior impacto.
Por outro lado, surgem também oportunidades económicas: empresas ligadas à construção, engenharia, energias, eficiência energética e soluções de resiliência climática poderão beneficiar de novos projetos e investimento público e privado.
Em síntese, o principal impacto não deverá ser estrutural, mas sim orçamental e setorial, exigindo das empresas maior prudência financeira e reforço da gestão de risco operacional. E citando Darwin, neste cenário propício a mudanças mais ou menos esperadas, não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas sim o que melhor se adapta às mudanças … e para isso, há que continuar a tendência de crescimento! Ou seja, a economia portuguesa deverá crescer, ainda mais devagar do que se esperava há um mês atrás, mas o importante é não cair!




